Abaixo segue um texto que achei muito interessante e pertinente sobre este assunto, espero que gostem...
Abrs.
Educação, quantidade e qualidade
julho 31, 2007 escrito por Alexandre Gomes
"Acima de tudo, precisarão de coisas que o dinheiro não poder comprar: idéias e coragem, determinação e disposição para auto-avaliação, reforçadas por um desejo de aventura e mudança" (Philip Coombs, A Crise Mundial da Educação)
Um dos meus maiores esforços pessoais ao escrever nestes últimos tempos é garantir a sinceridade do que escrevo, não me autocensurar pelo fato das coisas que escrevo agora passam em certo grau a serem compromissos maiores, quase um programa de governo. Nem sempre é fácil porque tendo a fazer propostas radicais - no sentido original do termo de atacar a raiz das questões - em um momento no qual as pessoas tendem à superficialidade.
Revolto-me com o gosto das pessoas pela quantidade. Acho que há certo aspecto infantil nestas soluções quantitativas. Para a criança é relevante ter dezenas de brinquedos, ou livros e revistas, ou roupas, que jamais usará, porque ela confunde a posse com o usufruto.
Também a maioria da população pensa de forma quantitativa, acha eu ter grandes prédios ou aumentar as verbas para isto ou aquilo será capaz de resolver o problema. Querem um grande prédio para uma escola, um hospital gigantesco, um enorme centro cultural - para só usar alguns exemplos concretos com os quais me deparei nos últimos meses - sem se importar se a escola realmente ensinará, se os postos de saúde locais não dariam um atendimento mais adequado ou se pequenos grupos ativos de cultura não teriam melhor efeito.
A imensa maioria dos homens públicos mima a criança-povo não só dando o que ela pensa que deseja, mas incentivando este desejo quantitativo. Às vezes por sem-vergonhice mesmo, porque grandes prédios significam cifrões na equação com as empreiteiras, mas às vezes pensam em construir o óbvio por pura falta de imaginação e criatividade mesmo.
Quando comecei na vida política a esquerda era, talvez, mais inteligente e menos esperta. Denunciava as "obras faraônicas" dos governos como sendo más respostas às reais necessidades da população. Por malandragem ou covardia este discurso sumiu, assim como o que criticava o assistencialismo, o clientelismo, o paternalismo, todos devidamente legitimados.
Revolta-me que a "grande idéia" corrente para educação seja construir prédios, dar merenda, uniforme e material escolar. Lamentável que o mesmo Anísio Teixeira que me dá alento para pensar a educação seja usado como álibi para esta preocupação estritamente material. É típico do nosso tempo que ao sentido múltiplo de "Educação Integral" seja dado só o se sentido material, mas não é de forma alguma inevitável.
Quando Philip Coombs - que foi da Unesco como Teixeira - escreveu em 1968 sobre a crise mundial da educação já antevia muitas dificuldades que seriam geradas pelo processo de universalização do ensino que corria pelo mundo. Uma das chaves das suas propostas era criatividade e outra avaliação permanente, ao lado disso falava de combater a inércia tanto interna como externa ao sistema, destacando que a relação entre escola e sociedade deveria ser dialética, ou seja a escola deveria não só atender às demandas da sociedade, mas ser capaz de contribuir para que estas demanda fossem as mais adequadas.
Julgo que um dos mais graves erros da esquerda em termos de educação foi menosprezar e desmantelar a educação técnica de qualidade. Há um grande esforço nos últimos anos para recuperar isto,mas só muito recentemente se pensa no assunto de uma forma mais adequada.
Mas a crise da educação é também sintoma da crise de autoridade generalizada. Resgatar o papel e a autoridade do mestre, que tanto descaso de um lado, teorias pretensamente alternativas" e desvalorização profissional de outro desgastaram.
O corporativismo, que é a espécie mais danosa da inércia interna, tem sido o grande elemento de reação a qualquer mudança. Em uma máquina do tamanho da educação estadual em São Paulo imagino que é uma força incapaz de ser enfrentada com eficiência. Certamente é uma pena, mas se houver meio de evitar que as boas experiências,as iniciativas pessoais e os esforços das pequenas minorias de mestres já se conseguirá muita cosia. Infelizmente a boa vontade, a dedicação e até a abnegação não tem como serem induzidos por políticas públicas, mas cabe esperar que ao menos elas não sejam punidas, o que já é grande coisa.
Avaliações, as temos aos montes, mas elas são hoje apenas números mortos, atestados de óbito da nossa educação e futuro. Resta esperar que sejam exumadas para servir de ferramenta às mudanças que são necessárias. Nem que seja para demonstrar o que não está funcionando e a inutilidade de merendas, uniformes e prédios.

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